quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Interpretação dos aspectos segundo Morin de Villefranche


O Morin deixou umas regras de interpretação dos aspectos. Eis uma síntese destas regras. Apenas não vou referir-me ao estado medíocre dos planetas na questão dos aspectos, contentando-me da referência ao bom estado e ao mau estado, o medíocre deduzindo-se como intermediário entre bom e mau.
Então aqui vai:

1 Um planeta benéfico:
1.1 em bom estado celeste
1.1.1 e lançando um aspecto benéfico
1.1.1.1 e havendo um bom estado celeste do planeta no grau onde cai o aspecto :
- efeitos benéficos com facilidade e em abundância, com realização das boas coisas significadas pelas casas e impedindo a realização das coisas más;
1.1.1.2 e havendo um mau estado celeste do planeta no grau onde cai o aspecto :
- efeitos benéficos fracos;
1.1.2 e lançando um aspecto maléfico
1.1.2.1 e havendo um bom estado celeste do planeta no grau em que cai o aspecto:
- efeitos benéficos;
1.1.2.2 e havendo um mau aspecto celeste do planeta no grau onde cai o aspecto:
- dificuldades, obstáculos, privações;
1.2 em mau estado celeste
1.2.1 e lançando um aspecto benéfico
1.2.1.1 e havendo um bom estado celeste do planeta no grau onde cai o aspecto :
- pouco bem;
1.2.1.2 e havendo um mau estado celeste do planeta no grau onde cai o aspecto /
- efeitos negligenciáveis, muito pouco bem;
1.2.2 e lançando um aspecto maléfico
1.2.2.1 e havendo um bom estado celeste do planeta onde cai o aspecto :
- efeitos antes maléficos;
1.2.2.2 e havendo um mau estado celeste do planta onde cai o aspecto :
- muito mau;

Como se viu, acaba no fim tendo efeitos bastantes maléficos a partir de um planeta naturalmente benéfico.

Um planeta maléfico
2.1 em bom estado celeste
2.1.1 e lançando um aspecto benéfico
2.1.1.1 e havendo bom estado celeste do planeta onde cai o aspecto:
- realiza as coisas com certo sucesso e felicidade através de dificuldades medianas;
2.1.1.2 e havendo mau estado celeste do planeta onde cai o aspecto:
- poucos efeitos felizes e acompanhados de grandes dificuldades;
2.1.2 e lançando um aspecto maléfico
2.1.2.1 e havendo bom estado celeste do planeta onde cai o aspecto:
- efeitos antes favoráveis mas violentos e seguidos de resultados, em casas felizes, mas nefastas em casas infelizes;
2.1.2.2 e havendo mau estado celeste onde cai o aspecto:
- efeitos moderadamente maléficos em casa feliz e muito nefastas em casas infelizes;
2.2 em mau estado celeste
2.2.1 e lançando um aspecto benéfico
2.2.1.1 e havendo bom estado celeste do planeta onde cai o aspecto:
- efeitos medianamente favoráveis seguidos de degradação;
2.2.1.2 e havendo mau estado celeste do planeta onde cai o aspecto:
- efeitos muito nocivos;
2.2.2 e lançando um aspecto maléfico
2.2.2.1 e havendo bom estado celeste do planeta onde cai o aspecto:
- danos importantes sobretudo no caso de casa infeliz;
2.2.2.2 e havendo mau estado celeste do planeta onde cai o aspecto:
- danos extremamente graves.

(Aqui pode ver-se que a partir de um planeta maléfico natural, pode haver bons resultados, mas nunca sem alguma dificuldade).

Texto adaptado e traduzido de Comment interpréter un thème (Como interpretar um mapa), caderno por Denis Labouré.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Sobre a exaltação dos planetas



 
A exaltação, cuja aparição precedeu a dos domicílios, historicamente, deve ter revestido um papel eletivo (da astrologia eletiva, a busca do momento certo). Pelo menos quanto aos três planetas superiores, Marte, Júpiter e Saturno, para os Caldeus na Babilônia.
Sabe-se que o Sol se exalta em Áries porque a passagem dele neste signo se faz no momento em que o Sol no seu movimento anual ultrapassa o equador celeste, passando de sul para norte. E havia equivalência do significado de exaltação com o de elevação, e pela mesma ocasião, a equivalência de queda com depressão ou abaixamento. Em outono, no hemisfério Norte, o Sol repassava o círculo equatorial celeste de norte para o sul.
Na atribuição do Touro como exaltação, precisamos visualizar o momento em que o sol tendo se posto, depois de uma Lua nova, na primavera, o Sol estando então em Áries, a Lua só se tornará de novo visível, quando estiver em Touro. Para os Babilônios Saturno não era considerado maléfico, ele correspondia à virtude de prudência e era auspicioso que ele brilhasse toda a noite e que neste mesmo momento ele estivesse se levantando no signo de Libra, o signo outonal. Ao contrário era fortemente desejável que Marte, anunciador de guerra e luta, fosse invisível; daí sua exaltação em Capricórnio, na ante culminação, enquanto Júpiter se exaltasse em Câncer que estaria na culminação.
Isto não constitui uma clara explicação das exaltações que fundamentalmente resta desconhecida mas pelo menos é bem sugestiva.
Não explica por exemplo a escolha de Peixes para a exaltação de Vênus e de Virgem para a exaltação de Mercúrio, signo onde já encontra um de seus domicílios.
Observa-se também que os dois benéficos são exaltados, para Vênus num signo que faz sextil a um de seus domicílios (Touro,) e Júpiter num signo que faz trígono com um de seus domicílios (Peixes) e já se sabe pela ordenança dos domicílios que o sextil é venusiano e o trígono é jupiteriano. E observa-se que o Sol e os planetas superiores exaltam-se em signos cardinais, que os dois luminares exaltam-se em signos lado a lado, logo a Lua em signo fixo, enquanto os dois planetas inferiores Vênus e Mercúrio exaltam-se em signos mutáveis.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

A astrologia como ciência do significado das aparências




Um artigo meu saiu numa revista de astrologia francesa (3*7*11, nº 78, junho 2015, boletim da associação RAO) sobre este tema. A ideia básica é que a astrologia tendo sido justificada cientificamente (ou seja como uma relação de causa e efeito do movimento de um primeiro móbile sobre as esferas planetárias e sua repercussão no mundo elementar da esfera sub-lunar) durante 20 séculos através da cosmologia geocêntrica ptolemaica, ela mesma sendo uma variação a partir da cosmologia aristotélica tão geocêntrica quanto a outra, isto explica o fato que uma grande parte dos astrólogos mesmo hoje pensam nos fenômenos astrológicos em termos de explicação científica, com uma relação de causa e efeito entre a posição dos astros e os fatos e eventos que se lhes atribui. Se bem que quem tem uma posição de explicação a-causal necessita precisar seu pensamento quanto ao tipo de vínculo existindo entre os eventos celestes e os eventos terrestres. A cosmologia aristotélica tendo sido progressivamente derrubada a partir da revolução coperniciana e galileana e completamente abandonada no fim do século XVII, o que resta a meu ver, como procedimento para explicar o funcionamento da astrologia, o que repousa sobre visões anteriores à cosmologia aristotélica e que precisam ser revisitadas, porque de todas as hipóteses que foram formuladas, desde o afundamento da explicação aristotélica revisada pela explicação medieval de São Tomás de Aquino (uma remodelação da aristotélica ao credo cristão do Universo teocêntrico e do livre-arbítrio), nenhuma recebeu aceitação da comunidade científica, nem um consenso dos próprios astrólogos, estes preferindo geralmente invocar a sua experiência na matéria do que  teorias justificativas.
Ora anteriormente a Platão, mesmo que, geralmente, se atribua grande importância à astrologia nos ensinamentos da escola pitagórica (mas sem que tenham ficado testemunhos escritos desta época, só de discípulos posteriores), parece difícil encontrar alguma explicação discursiva sobre a astrologia; apenas se encontram afirmações sobre elos entre os astros e a vida terrestre de ordem mitológica, teológica ou cosmogônica em documentos relativos às crenças babilônicas e egípcias, quanto a correspondências entre eventos e fenômenos celestes e eventos terrestre, que desde então foram incorporadas à doutrina astrológica que exerceu influência no mundo ocidental. Se bem que é na obra de Platão que se deve procurar as primeiras interrogações sobre uma justificação e uma definição de uma ciência que ele chama “astronomia”, mas que visivelmente tem pouco a ver com o que hoje se chama com este nome. A leitura atenta dos textos platônicos sobre o assunto e sobre as ciências em geral mostram um parentesco com a concepção que encontrei no meu percurso dentro do universo astrológico e esotérico a que fui confrontado na minha busca espiritual, em particular na obra do mestre sufista francês René Guénon. De fato, encontrei no diálogo entre Sócrates e Glauco em A República, quando está exposto e discutido quais ciências deveriam ser ensinadas aos guardiões da cidade ideal que Sócrates está tentando delinear, uma mesma crítica a este aspecto utilitarista que Guénon diz ser puramente a característica única da ciência moderna e faz dela, no seu entendimento, “um saber ignorante”, “um saber de ordem inferior limitando-se inteiramente ao nível da mais baixa realidade, e saber ignorando tudo que o  ultrapassa, ignorante de todo fim superior a ele mesmo”. Assim, depois de ter admitido como primeiras ciências necessárias à formação desta elite a ciência dos números e a geometria e tendo perguntado se a astronomia seria a terceira, Sócrates zomba da resposta do seu interlocutor que lhe explicou que “saber reconhecer com desembaraço o momento do mês e do ano em que nos encontramos é algo que interessa não somente à arte do lavrador e do piloto de navio, mas ainda e não menos à do general”. Diz Sócrates: “Fazes me rir (...), pareces temer que o vulgo te censure por prescrever estudos de nenhuma utilidade. Ora importa muito, embora seja difícil, pensar que os estudos de que falamos purifiquem e reavivem em cada um de nós, um órgão da alma danificado e cegado pelas outras ocupações, órgão cuja conservação é mil vezes mais preciosa do que a dos olhos do corpo, já que é por ele que se percebe a verdade”.
Desde já o Glauco poderia entrever que o órgão da visão de que Sócrates fala não é o da potência sensível, mas o de uma intuição superior, mas seu interlocutor pensando se redimir da sua primeira resposta entusiasta sobre a utilidade da astronomia e querendo louvá-la “de uma maneira conforme ao ponto de vista sob o qual Sócrates a encara” afirma que “ela obriga a alma a olhar acima e a passar das coisas daqui embaixo para as coisas do céu”, mas Sócrates lhe faz nova crítica, mangando de novo da audácia da sua concepção das coisas de cima, comparando-a à de um homem que deitado ficaria contemplando os ornamentos do teto de uma morada e acreditaria fazer assim uso de sua razão e não de seus olhos corporais. Sócrates afirma não poder reconhecer nenhuma outra ciência que faça olhar acima que a ciência do ser e do invisível e que “se alguém tentar estudar algo sensível olhando para cima de boca aberta (…), não aprenderá nada – pois a [verdadeira] ciência não comporta nada sensível – e que [então] sua alma não olha para cima mas para baixo”. Desconcertado Glauco acaba perguntando como ele Sócrates imagina então reformar o estudo da astronomia para torná-la útil ao desígnio da formação da elite guerreira da Cidade perfeita que eles estão planejando e ouve esta resposta:
“A gente deve considerar os ornamentos do céu como os mais belos e os objetos mais perfeitos na sua ordem, mas como pertencem ao mundo visível, eles são muito inferiores aos verdadeiros ornamentos, aos movimentos segundo os quais a velocidade pura e a pura delonga, no verdadeiro número e nas verdadeiras figuras, se movem uma em relação com outra, e movem o que está dentro delas; ora estas coisas são percebidas pela inteligência e não pela vista (…). É preciso então (…) utilizar os ornamentos celestes como modelos no estudo destas coisas invisíveis”.
Eu entendo assim este discurso: o que é do domínio do mundo sensível pode ser instrumentalizado (e Platão não o diz aqui explicitamente, mas pode ser através da linguagem simbólica) para atingir o invisível (não o que é invisível por causa dos limites dos nossos sentidos, mas no sentido do que é somente inteligível). Nisto reside, segundo Platão a verdadeira razão da existência da vista como pode ser lido num trecho do seu outro diálogo (Timéu, 47b):
“A vista é para nós homens, segundo meu parecer, a causa do maior bem, no sentido que nenhuma das explicações que se propõe hoje para o cosmo nunca poderiam ter sido pronunciadas, se não tivéssemos visto os astros, nem o sol, nem o céu. Mas verdadeiramente, é a percepção do dia e da noite, dos meses, das revoluções dos anos, dos equinócios, dos solstícios que nos fez descobrir os números, que nos deu a noção do tempo e os meios para estudar a natureza do Todo. É graças à vista que temos a filosofia, o bem mais precioso que o gênero humano tenha recebido e jamais possa receber graças a munificência dos deuses.
 (…) Para nós, dizemos que a causa deste grande bem, é a seguinte: Deus criou e nos dotou da vista afim que contemplando as revoluções da inteligência nos céus [ele fala dos movimentos das estrelas, planetas e esferas celestes], apliquemo-las às revoluções da nossa própria mente que, embora sejam desordenadas, são parentes das revoluções imperturbáveis do céu e que depois de ter estudado com profundidade estes movimentos celestes, possamos, imitando os movimentos absolutamente invariáveis da divindade, estabilizar os nossos que são assujeitados a aberrações.”
Assim bem podemos chamar de aparências o que nos vemos no céu e acabamos de ver que Platão não o vê de outra maneira que o que se vê é a imagem do que não se vê e que revela o significado e a mensagem intencional que possui, esta intenção para ser decifrada necessitando uma cosmologia, teologia, ou metafísica em que esteja enquadrada.
Vemos através deste texto uma diferença bastante sensível do que poderia ter sido ou do que possa ser uma astrologia com discurso platônico (que se poderia dizer esotérica) em relação a uma astrologia com discurso aristotélico (mais exotérica), o que de fato, foi sobretudo a astrologia ocidental durante uns dois milênios sob influência ptolemaica. Basta comparar com o discurso aristotélico que autorizava a ideia de um funcionamento causal dos astros segundo a qual “o mundo sublunar apresenta uma harmônica e constante sucessão de geração e corrupção e de mudança constante cuja causa universal reside no sol que, movendo-se num círculo oblíquo e logo, aproximando-se e distanciando-se, segundo um ritmo e intervalos de tempo constantes produz o ciclo das gerações e corrupções, a causa da constância e da harmonia com as quais produzem-se estas mudanças residindo no primeiro céu (o Primo Móbile, quer dizer o céu das estrelas fixas), cujo movimento é perfeitamente uniforme, estes dois movimentos, oblíquo do sol e uniforme do primeiro céu agindo como causa que pode ser dita eficiente ou motora “ (de “Aristóteles, Metafísica, ensaio introdutor, tradução e comentário de Giovanne Reale, volume I, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2001). Há verdade nos dois discursos e complementaridade entre eles. Os dois podem constituir uma visão completa do que possa ser uma astrologia ocidental tradicional não troncada.
No texto sobre os dois tipos de analogia, mostrei que a linguagem dos astrólogos usou durante muito tempo um segundo tipo de analogia, chamada analogia de atribuição. O primeiro tipo corresponde à ideia de proporção, seguindo a fórmula que “a é em relação a b, o que c é a d”, ou seja para dar um exemplo, o Sol é aos planetas o que o rei é aos homens, o leão aos animais, o ouro aos metais, etc. A um nível mais alto de aplicação, Platão estabelece no livro VI do diálogo A República, a proporção entre Sol e ideia do Bem supremo, e por além disto entre mundo sensível e mundo inteligível, luz e verdade, objeto de visão e objeto de conhecimento, sujeito que vê e sujeito que conhece, órgãos (os olhos), faculdade e exercício da vista com os equivalentes para o conhecimento e a razão, a aptidão de ver e a de conhecer, mostrando assim o funcionamento do pensamento analógico.  Quanto ao segundo tipo, possui um modelo tirado da medicina medieval: “o adjetivo "são" atribuído ao animal, ao remédio, à bebida e à urina.”. Expliquei, baseando-me no livro do filósofo francês cristão Jean Borella (Penser l'analogie [Pensar a analogia], L'Harmattan, 2012, Paris), que “Ao animal, "são" é atribuído em sentido próprio porque é no animal que a saúde se realiza, mas é analogicamente que é atribuído ao remédio, à bebida e à urina; ao remédio porque produz a saúde no animal, à bebida que é sã, porque ela conserva a saúde do animal que a bebe e à urina, porque pode ser o sinal da saúde do animal.”. Assim na astrologia os autores antigos falavam por exemplo de planeta que mata ou que dá a vida, por ser sinal de risco de morrer para o nativo, ou de fonte ou força de vida. Este modo de falar vinha diretamente da concepção causal da astrologia, inspirada pela cosmologia aristotélica e que Plotino, o filósofo neo-platõnico do século III criticava sem no entanto condenar a astrologia e sua eficiência, não mais nem menos que outras artes divinatórias, como o estudo dos voos dos pássaros (ninguém no entanto pretendendo afirmar que o voo dos pássaros fossem a causa dos eventos, mas apenas uma indicação deles).
“Não dá para compreender, escreveu Plotino, como os astros poderiam tornar alguns sábios, outros ignorantes, estes gramáticos, aqueles oradores, outros músicos, ou hábeis em diversas artes; como exerceriam o poder (...) de nos dar um pai, um irmão, um filho, uma esposa com um certo caráter, de nos fazer ter sucesso, tornarmos generais ou  reis” mas ele concluía : “É preciso então admitir que os astros parecem-se com letras que seriam desenhadas a cada instante no céu, ou que depois de ter sido desenhadas, estariam em perpétuo movimento, de tal modo que, ao mesmo tempo que preenchem outra função no universo, teriam no entanto um significado”.
Dou minha adesão total à compreensão da astrologia segundo a teoria da “analogia que mantém o universo”, fórmula platônica relatada por Plotino, mas por outro lado, não vejo interesse à atenção dada, principalmente, aos aspectos concretos da existência senão na medida que este conhecimento seja uma primeira etapa para conhecer os nossos trunfos e obstáculos para realizar o sentido da nossa vida.

Guy Taillade (julho 2015)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Os dois tipos de analogia



Não é uma filosofia que está na base da astrologia. Para ser mais exato, ela é um elemento de uma visão total das coisas (a existência, a vida o porquê de tudo), visão que devia originalmente se inserir numa tradição de um povo determinado ou para melhor dizer de qualquer povo que tivesse dentro desta tradição o uso de uma astrologia. Mas como há semelhanças entre várias tradições houve possibilidade de transferências de astrologia de alguma tradição para outras, ou abertura a interferências das tradições umas sobre as outras, numa área geográfica dada e em tempos históricos específicos.
Mas a filosofia pode depois por sua natureza trazer uma reflexão global sobre a epistemologia da astrologia. Estamos levados a fazer isto hoje porque há interrogações legítimas sobre o que é a astrologia, como ela funciona, porque, quais foram as fases de sua história e o que implicam.
Eu queria falar sobre um ponto ao qual dou muita importância e que pode explicar como a mesma pessoa pode em momentos dizer que os astros não causam nada e em outros falar de influências astrais.
Semelhante contradição aparente existe em função da existência de dois tipos de analogia (a analogia que está verdadeiramente na base da astrologia, mesmo que os seus praticantes não tenham domínio sobre ela).
O primeiro tipo é o que é chamado analogia de proporcionalidade tomada de empréstimo à matemática e que se formula assim: a/b = c/d. Levado em outro campo que a matemática formula-se assim: a é a b o que c é a d. Exemplo: o leão é aos animais o que o rei é aos homens e pode se estender ao que o Leão é ao zodíaco e ao que o Sol é aos planetas, ao que o ouro é aos metais, etc, é a teoria das "assinaturas", a visão vertical do mundo em oposição à visão horizontal do pensamento moderno. Esta forma de analogia é verdadeiramente o único fundamento da astrologia e de todas as ciências afins.
Mas há uma outra forma de analogia que não é o fundamento do pensamento astrológico mas impregna ou impregnou seu discurso, é o que é chamado de analogia de atribuição, que qualifica o modo segundo o qual um mesmo termo é atribuído (não por acaso, mas voluntariamente e com uma intenção semântica) a duas entidades ou dois ou mais objetos diferentes. Esta forma de analogia não é própria da astrologia. O exemplo clássico citado na idade média é tirado da medicina (e entende-se como pode ter passado à astrologia, quando se sabe o elo forte entre astrologia e medicina desde a mais alta antiguidade): é o adjetivo "são" atribuído naquela época ao animal, ao remédio, à bebida e à urina.
Ao animal, "são" é atribuído em sentido próprio porque é no animal que a saúde se realiza, mas é analogicamente que é atribuído ao remédio, à bebida e à urina; ao remédio porque ele produz a saúde no animal, à bebida que é sã, porque ela conserva a saúde do animal que a bebe e à urina, porque pode ser o sinal da saúde do animal. E é através deste último exemplo que se vê como este processo pôde ser aplicado na astrologia, onde os planetas são vistos como os sinais das coisas.
Mas isto mostra também que não pode haver analogia de atribuição expandida à astrologia sem que haja primeiramente uma analogia de proporcionalidade que pelo simbolismo astrológico confira aos astros, signos, casas, aspectos uma relação analógica de proporcionalidade entre os objetos do céu e todos os objetos do mundo sublunar ou para falar em termos modernos da biosfera.
Guy Taillade

(referência: tomei apoio num livro do filósofo cristão francês contemporâneo Jean Borella)